Umbanda Hoje

A ESTRATÉGIA DA ESPIRITUALIDADE
PARA O SURGIMENTO, EXPANSÃO E
CONSOLIDAÇÃO DA UMBANDA

A Indicação de Zélio Fernandino de Moraes para ser
Médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas

      O pontapé inicial de nossa matéria, o que não é costumeiro, começará com algumas observações aos irmãos umbandistas que ainda não perceberam certos detalhes que estão em um nível de captação, compreensão e interpretação que foge à percepção cotidiana sobre atos e fatos pertinentes à história de nossa religião. Por desinteresse, distração ou ausência de análise apurada, não mergulharam no real sentido de algumas deliberações da Corrente Astral de Umbanda no tocante à Anunciação da Umbanda no plano físico sob a forma de religião (para melhor compreenderem o presente texto, acessem a matéria A Corrente Astral Umbanda), em especial a escolha para intermediário (médium)  entre o plano espiritual e o físico de um rapaz com apenas 17 anos, que naquele ano de 1908 já vinha se preparando para ingressar na Escola Naval (Instituição Militar de Formação de Oficiais da Marinha). De família tradicional e católica, classe média e pele branca, jamais imaginaria que o curso de sua vida já estava traçado como importante peça inserida na complexa engrenagem criada e movimentada há tempos pelo mundo espiritual para o advento de nossa religião, sendo apontado pela Espiritualidade como o médium por meio do qual a entidade espiritual Caboclo das Sete Encruzilhadas se expressaria na esfera terrena anunciando o advento da Umbanda.

      À luz do preâmbulo exposto, indagamos:

      1º) Que motivos a Espiritualidade levou em consideração para que o então jovem Zélio Fernandino de Moraes fosse escolhido para ser o médium que, pela mecânica da incorporação (acoplamento entre o corpo astral do espírito e o corpo astral do encarnado), possibilitaria a manifestação de uma entidade espiritual missionária para a anunciação de uma nova religião?

      2º) Como um jovem de formação católica, saindo da adolescência, ainda sem vivenciar os sabores e dissabores da vida adulta, com dúvidas e sonhos, com desejos e aspirações, sem conhecimento sobre o mundo dos espíritos, mediunidade, incorporação, focado em ser oficial da Marinha, reagiria quando tomasse ciência e consciência da missão a ser cumprida?

      Antes de prosseguirmos, uma pergunta pra você, pedindo que reflita profundamente antes de responder: Por alguns instantes, ponha-se no lugar do jovem Zélio. Imagine-se tendo 17 anos (com a mentalidade mediana própria de tal idade no início do século XX – 1908), no conforto de seu lar, carregando desejos, planos, descortinando oportunidades para uma vida social/profissional frutífera, amparado e apoiado por uma família de classe média, unida e estabilizada financeiramente, e sem as pressões sociais que abalam os menos abastados e carentes de uma existência digna. E com todas estas facilidades postas a sua disposição, você, leitor, dispensaria, renunciaria, deixaria de usufruir tais privilégios por vontade própria? Abriria mão, ainda que parcialmente, de sua cômoda e agradável adolescência/juventude? Deixaria de lado suas aspirações pessoais para assumir uma missão até então desconhecida e mais tarde sabidamente espinhosa?

      Continuemos, agora nos debruçando sobre os questionamentos lançados no início do texto, fazendo menção a tais indagações, mas de forma resumida, a fim de ganharmos tempo e espaço nas considerações sobre cada uma delas.

      Quanto à 1º Pergunta (resumida) Quais os motivos da Espiritualidade para a  escolha do Jovem Zélio como médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas?

      * Motivos Espirituais – Temos convicção de que a Corrente Astral de Umbanda indicou Zélio Fernandino de Moraes para servir de intermediário (médium) entre o Caboclo das Sete Encruzilhadas e o plano terreno por conta o histórico espiritual do mesmo. Por lógica e bom senso, certamente o espírito que em 1908 estava sob as vestes carnais de um garoto de 17 anos possuía um enredo de encarnações e experiências conectadas aos pretos, indígenas e brancos, além de outras peculiaridades e atributos que o capacitaram a bem e fielmente cumprir a missão que lhe foi apresentada e aceita. Por analogia (relação de semelhança) e raciocínio lógico, é provável que o processo de seleção/escolha do jovem Zélio pela Corrente Astral de Umbanda tenha sido muito parecido com o processo adotado para indicar o espírito missionário, porta-voz da Espiritualidade, responsável pela Anunciação da Umbanda no plano físico, que na esfera terrena identificou-se como Caboclo das Sete Encruzilhadas (Vide matéria A Corrente Astral Umbanda).

      *Motivos Terrenos (Sociológicos/Psicológicos) – Antes de entrarmos no tópico em si, aconselhamos aos leitores movidos por “paixões”, que costumam pensar e agir com o “fígado” e não com a mente, que lançam sua ira ao serem contrariados, dentro do bom senso e da lógica, em seus conceitos e ações comandados por doutrinas alienantes e destrutivas, a não continuarem a leitura, eis que serão confrontados por análises e raciocínios lógicos, coerentes, potencialmente nocivos a psiques manipuladas e alimentadas com informações deformadas e narrativas que obstruem a capacidade cognitiva (de cognição, do termo grego Gnosisconhecimento). Somos responsáveis pelo que escrevemos; para aqueles que continuarem a ler, que sejam responsáveis pela compreensão e interpretação que extraírem do texto.

      Estamos no início do século XX – imaginem -, época em que a sociedade em geral ainda estava sob os ares de um longo período escravocrata que findou oficialmente em 1888, e do qual a população guardava uma profunda influência no pensar e agir (somente 20 anos separavam 1888 de 1908), fruto de uma  memória coletiva que ainda pairava na psique das pessoas. Preconceitos e discriminações ainda estavam pulsantes no início da primeira década do século XX, reflexo de uma maliciosa propaganda de convencimento repetida à exaustão que começou muito antes dos primeiros navios trazendo cativos chegarem ao Brasil-Colônia durante meados do século XVI, induzindo a sociedade daquela época a ter como verdade que indígenas, e principalmente os africanos que estavam por vir, eram povos que não se enquadravam na categoria de seres humanos.

            Pedindo que o exercício de imaginação proposto continue, como se no ano de 1908 estivessem, indagamos:

      *Qual a probabilidade de êxito (do surgimento em si), expansão e consolidação a Umbanda teria se tivesse sido anunciada no plano terreno por meio da mediunidade de uma pessoa indígena, mestiça ou preta? Pense bem, reflita dentro da lógica e do bom senso antes de responder.

      * E se no lugar de um adolescente/jovem de 17 anos, estivesse um indivíduo de pele branca, maduro, plenamente integrado a uma sociedade de adultos, com os quais interagisse, seja no ambiente profissional, cultural ou recreativo, com imensa possibilidade, com grande probabilidade de já ter sido influenciado, sugestionado, induzido, dominado por pensamentos, conceitos e condutas chafurdadas de preconceito e discriminação presentes nos diversos grupos sociais existentes naquela época. Será que neste caso o surgimento, difusão e consolidação da Umbanda teria sucesso? Pare, raciocine, pondere, e só então tire a sua conclusão.

       A indicação pela Corrente Astral de Umbanda do jovem Zélio Fernandino de Moraes, com 17 anos em 1908 – apenas 20 anos após o fim da escravidão, para ser o médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, que no mês de novembro daquele ano anunciou o advento do novo culto, foi de uma engenhosidade ímpar, perfeita, muito bem pensada e executada, driblando, contornando um dos maiores obstáculo terrenos para o surgimento da religião: A repulsa social. Por que? Zélio era adolescente/jovem, com uma mente pura, arejada, oxigenada, sem aquela carga de influências que a sociedade despejava sobre os que a ela se integravam. Por ser branco e de classe média, afastou qualquer possibilidade de ser atacado diretamente em razão da cor da pele e/ou pelo status social e financeiro, consideráveis blindagens para cumprir sua árdua tarefa. Por suposição, hipótese, que chance de êxito você acha que teria a expansão e consolidação do novo culto caso o médium escolhido para a manifestação da entidade espiritual anunciadora da nova religião fosse um indígena, mestiço, ou preto, levando em conta a sociedade daquela época? Nula ou quase nula, afirmamos. Se a indicação recaísse sobre um indivíduo não branco, este sim seria atingido de forma impiedosa pela sociedade vivente do início do século XX, influenciada por uma memória coletiva secular enraizada desde o período escravocrata. Passaria por hostilidades, seria intimidado, coagido, taxado de inculto, iletrado, o culto ganharia a pecha de primitivo, fetichista, marginal, ilegítimo e maligno, seria acusado de charlatanismo e curandeirismo, seria perseguido e reprimido com vigor pelo Poder Público, ainda mais em se tratando de uma religião que surgiria dentro de uma zona urbana, de densidade populacional infinitamente superior às periferias e zonas rurais, com atividades mediúnico-espirituais às claras, sem temor e clandestinidade. Sem medo de errarmos, afirmamos que a escolha do jovem Zélio impediu investidas agressivas, barrou ações devastadoras sobre o novo culto a se iniciar. Para a época, dadas as condições psíquicas e comportamentais de grande parte da população, a indicação de um adolescente/jovem branco e de classe média foram duas das mais importantes decisões tomadas pela Espiritualidade no plano físico para que a Umbanda surgisse e se legitimasse como religião. Não pensem, no entanto, que o jovem Zélio não teve contratempos em sua missão. Ainda que com as condições favoráveis já mencionadas como aliadas para que sua missão ocorresse de forma menos penosa, foi vítima de antipatia, aversão, incompreensão, ainda que de forma menos intensa, velada, reações sociais estas que a família também experimentou, resistindo e apoiando Zélio, assim que a missão do jovem se tornou conhecida e compreendida.

     Importante acrescentar, haja vista a grandiosidade da missão mediúnica a cumprir, que a Corrente Astral de Umbanda, por lógica e bom senso, certamente proporcionou o necessário suporte, a prudente proteção tanto ao jovem Zélio quanto a sua família, antes e depois do surgimento da Umbanda, adotando medidas preventivas e repressivas para impedir ou repelir investidas maliciosas do submundo espiritual, que certamente tentaria embaraçar e criar obstáculos ao surgimento e às atividades do novo culto.

      Quanto à 2ª Pergunta (resumida) – Como um jovem de formação católica, com dúvidas e sonhos, com desejos e aspirações, sem conhecimento sobre o mundo dos espíritos, focado em ser oficial da Marinha, reagiria quando tomasse consciência da missão a ser cumprida?

            Aqui temos uma outra questão que merece ser comentada com apuro e atenção. E não se esqueçam, irmãos leitores, continuem mentalmente inseridos na sociedade do início do século XX, cientes do modo de pensar e agir próprios daquele tempo, prudente medida para entender o contexto psicossocial vigente à época, uma vez que não se pode compreender um passado distante se valendo de um olhar atual.

            Dia 15 de novembro de 1908, um domingo. Tendo passado por exames médicos e avaliações religiosas, nada descobriu-se sobre a causa ou causas de falas aparentemente desconexas, comportamentos estranhos, paralisias e outros incidentes que acometiam Zélio Fernandino de Moraes. Sem opções, a família acatou com reservas a sugestão de um amigo, que propôs levassem o jovem a uma sessão espírita, na antiga Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, localizada em Niterói e fundada em 1907, lugar em que centros espíritas sem sede utilizavam o espaço franqueado pela Instituição para as suas atividades. Sem entrarmos nos acontecimentos daquele dia, amplamente conhecidos, como você, leitor, se comportaria diante de um espírito que tomasse suas faculdades psicomotoras e falasse aos presentes sem seu controle? Que debatesse com argumentações seguras adultos que questionavam tal manifestação? Que rebatesse com segurança afirmações que repudiavam e depreciavam as figuras de índigenas e pretos? Como reagira ouvindo aquela voz “interior” verbalizando aos integrantes e assistentes da reunião espírita que no dia seguinte, em sua residência, anunciaria o surgimento de um novo culto? Ficaria assustado? Apavorado? Com vontade de correr daquele lugar? Se valeria da proteção dos pais como escudo contra o desconhecido? Choraria compulsivamente, desesperado com os fenômenos e as mensagens que aconteceram? Abandonaria as dependências da Federação e se esconderia numa igreja católica, agarrado à batina do padre e pedindo socorro? Bem…o jovem Zélio após ser o protagonista encarnado de uma atribulada sessão espírita continuou tranquilo, sem alterações de humor, sem medo e sem desequilíbrio emocional, mesmo ouvindo o que estava por vir no dia seguinte – embora incorporado, captara tudo o que fora dito pelo espírito incorporante. Os ânimos exaltados ficaram por conta de quem o acompanhava, incrédulos com o que acabavam de presenciar e assustados com o que fora prenunciado. Se fossem seus pais, parentes e amigos, estimado leitor, como reagiriam diante de uma situação nunca vista, nunca vivenciada, em que eles testemunhassem você passar por situação desconfortável na Federação Espírita do Rio de Janeiro, e no dia seguinte, em sua casa, desse passagem para que um espírito pudesse anunciar o advento de um culto?

            E pelo cenário exposto, não é demais deduzirmos que mesmo com ausência de compreensão sobre a envergadura da missão que batia a sua porta, o inconsciente de Zélio, armazém mental de informações e experiências espirituais, deve ter sido ativado e transmitido compromissos assumidos no mundo astral ao subconsciente de forma a neutralizar instabilidades psíquicas ou comportamentais – se acontecesse seria normal para um garoto de 17 anos – que pudessem tirar seu consciente do eixo e desequilibrá-lo psiquicamente.

            De conhecimento geral dentro da História da Umbanda, como anunciado pela entidade espiritual Caboclo das Sete Encruzilhadas na antiga Federação Espírita do Rio de Janeiro, no dia seguinte, 16 de novembro, uma segunda-feira, às 20 horas, na residência do jovem Zélio, o espírito voltaria a se manifestar para cumprir a missão que lhe fora confiada pela Corrente Astral de Umbanda. Familiares apreensivos, alguns membros da Federação Espírita presentes para atestarem a veracidade do que tinha sido dito no dia anterior, e pessoas mais próximas à Família Moraes (parentes, vizinhos), todos aguardando impacientemente sobre a concretização do que tinha afirmado a entidade espiritual “intrusa” que ousou se manifestar, neutralizar indagações jocosas e vaticinar que um novo Culto estava por surgir. Para espanto de alguns e surpresa de outros, o que fora afirmado se concretizou: O Caboclo das Sete Encruzilhadas retorna. Valendo-se das faculdades mediúnicas do jovem Zélio e cumprindo as diretrizes traçadas pelo Plano Astral, anunciou o advento da Umbanda, abrindo as portas aos espíritos que eram repelidos, que não tinham voz em outros segmentos religiosos, e que a partir daquele momento histórico teriam um campo de ação próprio, amistoso e fecundo, em que poderiam se manifestar, auxiliando pessoas (e desencarnados) com seus ensinamentos, experiências e orientações, dentro do Postulado-Mater da Umbanda: Manifestação do Espírito para a Caridade.

Saravá Umbanda!