Umbanda Hoje

UMBANDA

A Religião da Conciliação e Reconciliação

 

            Os menos atentos ou distraídos, e aqui referimo-nos não só aos fiéis-assistentes como também a muitos médiuns da corrente dos vários terreiros que, guiados por um campo de visão estreito, limitado, obtuso, não desenvolveram uma ótica aguçada, uma percepção aprimorada sobre nossa religião, ainda não perceberam que a Umbanda não  se restringe a fenômenos espirituais, passes e consultas. É fato também que o imediatismo há muito tem sido o motor de uma sociedade cada vez mais desequilibrada, impaciente, apressada, frustrada por não alcançar em curtíssimo tempo, se alcançar, seus desejos e necessidades, legítimos ou não, éticos ou não, merecidos ou não, despindo-as da oportunidade de conhecer e entender a grandeza  dos planos arquitetados pela Espiritualidade Maior que engenhosamente plasmou no plano físico a nossa querida Umbanda sob o lema Manifestação do Espírito para a Caridade,  antes convocando e convidando uma gama incomensurável de espíritos, que depois de ingressarem na Corrente Astral de Umbanda passaram a atuar no plano terreno em prol de encarnados e desencarnados. No entanto, por trás desta interação entre o plano espiritual e o terreno, algo muito maior foi programado e vem sendo executado com maestria: Longe das vistas dos vivos, a Espiritualidade de Umbanda vem trabalhando incansavelmente para aproximar, unir e fraternizar Bandas oponentes, quer espirituais ou terrenas, desfazendo ou minimizando os estragos catastróficos advindos do processo de colonização de nosso país, que colocou, naquele período, de um lado os brancos,  e de outro lado indígenas e pretos, por meio da imposição de força, explorando a mão-de-obra cativa, e no caso dos indígenas, em um primeiro momento, pela exploração de sua força braçal, além da contínua dominação territorial.

            Trazendo para o universo dos terreiros, o que muitos enxergam são tão somente as atividades mediúnico-espirituais durante uma sessão/gira, como a defumação, os Pontos Cantados, o ecoar dos tambores/atabaques (onde há a utilização de instrumentos de percussão), a fumaça do charuto/cachimbo, as entidades espirituais dando passes e consultas, a conexão e louvação às forças invisíveis que nos envolvem, amparam e orientam, e outras ações visíveis de um templo umbandista. E é só isto que geralmente acontece em um terreiro? Afirmamos categoricamente que NÃO! Os templos umbandistas, aqueles que não abrem mão da seriedade, da responsabilidade, da dedicação aos postulados da religião, do respeito à Espiritualidade, que não fazem do espaço religioso balcão de negócios, banca de barganhas, boteco para encontros amorosos, conchavos e bebedeiras, são verdadeiros Pontos de Encontros e Reencontros, tanto na esfera espiritual quanto no plano terreno. É ali, no núcleo de caridade umbandista, de dimensões consideráveis ou diminutas, às vezes laminado com um piso simples ou mesmo firmado sobre chão de terra batida, que desafetos do passado, tanto espíritos como encarnados, ficam frente à frente, não para digladiarem, mas sim para apaziguarem ânimos acirrados, amansar sentimentos de vingança, aplacar o ódio alimentado durante décadas ou séculos, reconhecer os erros, perdoar, interromper obsessões, dialogarem, ouvirem e serem ouvidos. E este processo de desarmar mentes feridas e vingativas, de conscientizar e abrandar mentes enrijecidas pelo preconceito e pela discriminação acontece de maneira discreta, sem alardes, ora na consulta que um espírito no arquétipo de Preto-velho dá a um assistente, que no passado foi seu algoz, ora na conexão pela mecânica da incorporação, em que um médium trabalha em estreita colaboração com um espírito de arquétipo Caboclo, sendo aquele, o médium, a reencarnação de um ferrenho desafeto dos indígenas. São incontáveis os exemplos, causas e finalidades de encontros e reencontros que ocorrem dentro de um templo umbandista que navega pelas cristalinas águas da seriedade, respeitabilidade e credibilidade; gastaríamos páginas e páginas descortinando casos e mais casos em que os outrora inimigos, oponentes, perseguidores, perseguidos, assediadores, assediados, deixaram armaduras e apetrechos bélicos para trás, optando por enveredar  por uma nova estrada, sem espinhos e pavimentada agora com conscientização, reconciliação e fraternidade.

            E o que foi dito acima, extenso, mas necessário, leva-nos a outro assunto, conexo por natureza ao já exposto, que diz respeito a uma turba de mal-intencionados, ou mesmo de ingênuos aliciados por discursos de teor negativo que os fazem ser manipulados e levados a seguirem “cartilhas” nocivas à Umbanda, que incitam, que estimulam, não só o corpo de médiuns como também a assistência, a absorverem ideologias de confronto, segregacionistas, separatistas, fragmentárias, que visam criar hostilidades entre abastados e pobres, entre homens e mulheres, entre escolarizados e os não escolarizados, entre brancos, pardos e pretos, entre partidários da esquerda e da direita (aspecto político) etc. E não é só. Esta ação nefasta tenta de todas as maneiras lamaçais expandir seus planos para o campo espiritual, tentando induzir médiuns, em especial os de incorporação, que o certo é o Preto-Velho e o Caboclo não ajudarem pessoas de pele branca, tratarem-nas com desprezo, darem lição de moral, prejudicarem, se vingarem etc. Que os mesmos Pretos-Velhos e Caboclos têm que adotar e propagar ideologias manetas e delirantes, serem ativistas de causas que derretem os neurônios da sensatez; coitados, acham que podem mandar, manipular a Espiritualidade vinculada à Umbanda. Infelizmente alguns médiuns, os jovens em especial, caem nesta arapuca; durante a consulta, mesmo que incorporados, proferem palavras próprias, passando por cima dos bons conselhos de um Preto-Velho ou da orientação segura de um Caboclo. Mas e as entidades espirituais, o que fazem nesta situação? Elas se afastam e ficam por perto observando a conduta inadequada do médium que, na visão do assistente, é dos espíritos. Se o médium insistir com tal comportamento, por certo, outros efeitos desconfortáveis surgirão para ele. E o que falar dos mistificadores? Daqueles que fingem estar sob a ação incorporante de espíritos da corrente do terreiro para vociferar discursos militantes-ativistas? Lamentável.

            Uma orientação, se o leitor nos permitir, aos que frequentam Templos de Umbanda: Se você é assistente-fiel, vale dizer, deposita sua crença e fé nas entidades espirituais que trabalham na religião, e que por isto, sempre que pode acompanha uma sessão/gira, alimentando sua conexão com a Espiritualidade, ao consultar alguma entidade espiritual procure ouvir atentamente o que lhe é dito, tanto em relação a algum assunto levado à apreciação de um Caboclo, Preto-Velho, Exu etc., quanto à falas de caráter geral proferidas pela entidade espiritual. Se tiverem um conteúdo sadio, elevado, de valores positivos, de união, fraternidade, que o ajude e não prejudique terceiros, que enalteça o bem e despreze o mal, que sirva de alavanca para uma vida melhor, equilibrada e sob o manto da paz, ótimo para você. Se, ao contrário, você ouvir palavras carregadas de rancor, vingança, de vitimização, de luta de classes, de estimulo a enfrentamento, de hostilidade, de divisões entre pessoas com cor de pele diferente etc., saiba que certamente tais mensagens estão partindo, não de espíritos da corrente de um terreiro, mas sim de um médium contaminado por ideologias doentias. E a você que é dirigente físico/diretor mediúnico de culto/dirigente de culto, consciente de suas responsabilidades em seguir os postulados da Espiritualidade de Umbanda, caso chegue ao seu conhecimento ou observe algum médium ou assistente com discursos e comportamentos incompatíveis com a Umbanda, que carreguem em si elementos de confronto, divisão, embate, desarmonia, segregação, além de notória intenção militante e ativista dentro do templo que dirige, fique de olhos abertos, bem abertos, uma vez que erva-daninha não nasce em grupos, mas se fincar uma única semente, crescerá, dará crias e se espalhará rapidamente. E se não for arrancada pela raiz, fará estragos em todo o terreiro – corpo de médiuns e assistência.

            Templo de Umbanda é Ponto de Luz, não arena de confrontos, desavenças, divisões e hostilidades.

            Saravá Umbanda!