Umbanda Hoje

QUEM TEM OLHOS,

QUE VEJA

A Mensagem Implícita do Caboclo das Sete Encruzilhadas

na Federação Espírita do Rio de Janeiro em 15 de novembro de 1908


Não temos dúvida de que a maioria, senão a totalidade dos umbandistas, fiéis ou integrantes de corrente mediúnica, já sabem de cabo a rabo os fatos precedentes para o surgimento de nossa religião e a própria Anunciação da Umbanda no plano físico, no Rio de Janeiro, tendo como porta-voz espiritual o Caboclo das Sete Encruzilhadas, fato histórico ocorrido em novembro no longínquo ano de 1908, e como médium o jovem de 17 anos, Zélio Fernandino de Moraes, assunto já discorrido em nossa matéria de capa A Corrente Astral de Umbanda.

         Nossa abordagem, desta feita, será sobre partes do diálogo havido entre o Caboclo das Sete Encruzilhadas e alguns componentes da sessão de trabalhos espíritas que aconteceu no dia 15 de novembro de 1908, um domingo, nas dependências da antiga e extinta Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro (FEERJ), então sediada em Niterói e fundada em 1907, atualmente Instituto Espírita Bezerra de Menezes (IEBM), lembrando que o primeiro endereço da citada Federação foi em um sobrado na rua da Conceição, nº 133, em Niterói, dividindo o espaço com grupos espíritas sem sede.

         A dissecação que nos propomos a apresentar, cujo objetivo é trazer à tona de forma contextual o significado de algumas palavras e frases proferidas pela excelsa entidade espiritual, cujo conteúdo só se pode alcançar valendo-se de um olhar aguçado, de uma visão ampliada e de uma leitura atenta, tem por finalidade  desvendar o que o Caboclo das Sete Encruzilhadas disse nas entrelinhas durante sua manifestação na citada Federação. Para tal objetivo – tirar o véu de certas falas do Caboclo e mostrarmos o que ficou camuflado, velado, oculto, mas subentendido (o que se entende, mesmo não estando expresso, claro, à vista de todos), faremos uso da Hermenêutica, arte, técnica ou processo de decifração de um conteúdo, trazendo à superfície o que está por trás de uma palavra, de uma mensagem; é um poderoso instrumento extrator (que extrai, que retira o manto, que lança para fora, que revela) de informações encobertas por uma palavra, frase ou texto.

         Pontuamos três passagens resumidas do diálogo/debate acima mencionado e sobre elas nos debruçaremos, dentro da lógica, da coerência e do bom senso, a fim de chegarmos a dedução/conclusão de que o Caboclo das Sete Encruzilhadas deixou evidências verbais sobre o nome de nossa religião no dia 15 de novembro de 1908, quando se manifestou na Federação Espírita já citada.

 

         1ª Passagem

 

“Por que repelem a presença desses espíritos sem sequer se dignarem a ouvir suas mensagens? Será por causa de suas origens sociais e da cor?”

 

         Incorporado no jovem Zélio, o Caboclo das Sete Encruzilhadas adverte sobre o comportamento discriminatório de alguns componentes da sessão, ante a manifestação de espíritos em outros membros presentes à mesa, que fugia aos princípios, conceitos e práticas da doutrina espírita e que, por conta disto, foram “convidados” a se retirarem do recinto pelo presidente da sessão por denotarem atraso espiritual. E quem eram estes espíritos que, na visão do diretor da sessão, ousaram “invadir” a sessão e manifestarem-se por meio de alguns médiuns espíritas? Eram espíritos que tiveram encarnação como pessoas de cor preta, cativos ou não, era a exposição de espíritos da Banda dos africanos e de seus descendentes, que no Brasil chegaram ou que aqui nasceram, e que se integraram à Corrente Astral da religião. Observem que a Banda dos indígenas já estava naquela ocasião representada pelo próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas que, ao ser indagado pelo presidente da sessão sobre quem era, respondeu ser um simples Caboclo e que sua última encarnação fora a de um indígena brasileiro. Fato é que três Bandas, a dos indígenas, a dos pretos (africanos ou brasileiros), e a dos brancos (Zélio) se fizeram representar  na antiga Federação Espírita do Rio de Janeiro: Uma Banda por intermédio do Caboclo das Sete Encruzilhadas, a outra Banda por meio de espíritos com encarnação pretérita de pretos, escravizados ou livres, que também se manifestaram na sessão espírita, e a terceira Banda na figura do médium Zélio, de cor branca.

 

         2ª Passagem

 

“Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de

novembro) estarei na casa de meu aparelho, às 20 horas, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.”

 

         Nesta passagem, o Caboclo das Sete Encruzilhadas afirma que, diante da visão distorcida e do tratamento desrespeitoso de alguns componentes da sessão espírita em relação a ele – representação da Banda dos indígenas -,  assim como em relação a alguns espíritos que tiveram encarnação em corpos de tez preta, trazidos ou aqui nascidos – a Banda dos pretos -, estariam unidos, em uma só Banda, para cumprir a missão que o plano astral lhes outorgou, valendo-se do Culto a ser iniciado no dia seguinte pelo Caboclo. E mais: Para que o citado Culto tomasse forma num primeiro momento, a outra Banda, a dos brancos encarnados, já representada pelo jovem Zélio, propiciaria não só elementos materiais para o início da religião, como também médiuns por meio dos quais tais espíritos se expressariam no mundo físico. Observem que, ao contrário do período escravocrata, onde pretos e indígenas eram apartados, considerados mercadorias, ferramentas de trabalho, sem alma etc. pelas pessoas brancas (havia exceções), no Culto a brotar, haveria união, mesmos propósitos, fraternidade e igualdade. As três Bandas (indígenas, brancos e pretos) estariam fundidas em uma só Banda, Banda Una, ou Umbanda, para trabalharem e cumprirem os planos traçados pelo Astral Superior.

 

         3ª Passagem

 

No dia seguinte, na residência da família de Zélio, presentes seu pai, mãe, irmãos, parentes e amigos, na Rua Floriano Peixoto, nº 30, no bairro Neves, São Gonçalo, reuniram-se os membros da Federação Espírita, visando comprovar a veracidade do que havia sido declarado pelo espírito no dia anterior. Novamente incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que declarou que os velhos espíritos de negros escravos e índios de nossa terra poderiam trabalhar em auxílio aos seus irmãos encarnados, não importando a cor, raça ou posição social…

 

         Este trecho revela interessantes detalhes presentes no dia 16 de novembro, segunda-feira, na residência do jovem Zélio.

         O primeiro ponto relevante, e só vamos enxerga-lo interpretando de forma ampla e contextual, é o que diz respeito a questão do grau de credibilidade dado pelos componentes da sessão espírita ocorrida na Federação Espírita às falas do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Se no início da mencionada sessão a ausência de percepção de que ao tomar assento à mesa, o jovem Zélio já estava incorporado, e que o Caboclo se expressou, sem ser percebido, com a seguinte frase: “Aqui está faltando uma flor…”, saindo da sala e voltando com uma flor, colocando-a no centro da mesa (tímido por natureza e de educação esmerada, jamais o jovem Zélio tomaria tal atitude por conta própria, enfrentando homens idosos e desconhecidos), em um segundo momento, ainda durante a sessão, da falta de captação do que havia ocorrido passou-se a uma visão distorcida de que obsessores e/ou zombeteiros tivessem se infiltrado na reunião; além do Caboclo, manifestaram-se depois espíritos que tinham tido encarnação em corpos de pele preta. Ainda no transcorrer da mencionada sessão, os componentes da mesa espírita, em especial seu presidente, depois de tentarem repelir as manifestações espirituais, passaram a dialogar com o Caboclo, que argumentava de forma segura às indagações dos espíritas. Em um terceiro momento, a credibilidade do Caboclo das Sete Encruzilhadas aumentou entre os encarnados presentes, que passaram a lhe fazer mais e mais perguntas, todas respondidas em nível compatível com o intelecto que a ocasião pedia. Quando um dos membros da sessão, vidente, teve sua visão astral expandida, observou que no corpo astral da entidade havia traços de vestimenta sacerdotal de encarnação pretérita; aqui, o quarto momento, a credibilidade da manifestação espiritual ganha ainda mais volume e consistência, tanto que os componentes, já aceitando como fato incontestável o elevado grau evolutivo do espírito que se apresentou como Caboclo, decidiram estar presentes no dia seguinte na residência do jovem Zélio, a fim de testemunharem a veracidade, não mais do Caboclo, e sim do anunciado surgimento de um  Culto. Naquela noite de 16 de novembro de 1908, sob a apreensão de inúmeras pessoas que ocupavam o interior da residência da família Moraes, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se fez presente, atestando a representação da Banda dos Indígenas; depois foi a vez da Banda dos Pretos marcar presença por intermédio de um espírito que se identificou como Pai Antônio, um preto-velho. Mãe, pai, irmãos, tios, vizinhos, alguns ansiosos, outros atônitos e/ou curiosos, estavam ali, juntos, apoiando o jovem Zélio; era a representação da Banda dos brancos encarnados (espíritos da Banda dos brancos também se fizeram presentes em momento posterior).  Três Bandas unidas, irmanadas, em harmonia. aglutinadas em uma só finalidade: A anunciação de um novo Culto de Bandas Unidas, o culto de Banda Una, de Uma Banda, a Umbanda, de todos e para todos, encarnados e desencarnados.

         Encerrando, não podíamos deixar de reafirmar que o termo UMBANDA, nome de nossa religião, que nasceu, floresceu e se consolidou no Brasil – geneticamente brasileira – está em perfeita harmonia com a gramática de nosso idioma, uma vez que, aqui surgindo, por coerência, por lógica, não tinha sentido em ser nominada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas com uma palavra estrangeira. A Justaposição, processo de composição linguística de formação e junção de palavras, que mesmo depois de unidas continuam com os mesmos significados de antes, surgindo daí uma nova palavra – UM + BANDA = UMBANDA, que guarda conexão inquebrantável com os termos que lhe deram vida, é mais do que suficiente para atestar a formação do vocábulo UMBANDA tendo como berço o idioma português, nossa língua pátria.

         Saravá, Umbanda!